Formação

Submitted by admin on Qua, 08/24/2016 - 18:08

Segundo o nosso conhecimento o primeiro estudo para determinar as competências básicas e especificas necessárias para a actividade profissional em Engenharia de Reabilitação foi iniciado em 1978 no seio da divisão de Engenharia Biomédica da Sociedade Americana para a Educação em Engenharia [Potvin 1980]. Para esse feito foi realizado um questionário a quatro grupos de profissionais: professores de Engenharia Biomédica, Engenheiros (no campo da Engenharia Biomédica, não necessariamente em Reabilitação), médicos e profissionais de saúde especializados (administradores, investigadores, fisioterapeutas, terapeutas da fala, enfermeiros, conselheiros profissionais, técnicos de ortoprotesia). O questionário era composto por uma lista de conhecimentos científicos e técnicos que estes profissionais classificariam de necessários, desejáveis mas não requeridos ou não necessários. Da análise dos resultados desta avaliação seria possível criar curricula para a formação de Engenheiros com o objectivo de assumirem carreiras de responsabilidade no campo da Medicina de Reabilitação.

Os resultados deste estudo indicaram que as competências básicas deveriam ter uma ênfase em transdutores, dispositivos médicos, análise de movimento e anatomia, e que as competências específicas seriam no domínio dos produtos de apoio e dispositivos de reabilitação, programas de controlo de equipamento e legislação relacionadas com a área.

Neste estudo é interessante observar outros resultados paralelos à identificação das competências.

Numa tentativa de avaliar se os profissionais consideravam a Engenharia de Reabilitação diferente da Engenharia Clínica foi pedido que respondessem sim, não ou não sabe. Os resultados mostraram que os médicos, os profissionais e professores de Engenharia Biomédica sentiam que os campos eram diferentes. A maioria dos outros profissionais de saúde não sabia responder a essa questão. Entre os comentário relativos a esta questão os profissionais consultados eram da opinião que os Engenheiros de Reabilitação tinham um contacto mais directo com os pacientes, seriam mais orientados para dispositivos mecânicos enquanto que os Engenheiros Clínicos teriam maiores responsabilidades na instrumentação electrónica, e teriam que possuir conhecimentos mais aprofundados em processos patológicos, doenças, restrições de mobilidade, e áreas profissionais.

Os profissionais e professores de Engenharia Biomédica manifestaram também o receio que o estudo viesse a fomentar a criação de formação específica em Engenharia de Reabilitação, defendendo que esta área deveria ser considerada uma especialidade de Engenharia Biomédica de forma a conservar os recursos humanos e materiais existentes nas faculdades. 

A interpretação feita aos resultados sugeriu também que o mestrado se apresentava como o tipo de formação mais razoável. A percepção da necessidade de uma formação mais avançada como o mestrado foi mais patente nos profissionais de saúde.

Um Engenheiro de Reabilitação poderia obter primeiro uma Licenciatura em Engenharia Electrotécnica com ênfase em electrónica, aquisição e processamento de dados, sistemas de controlo e com o maior número de opções de Engenharia Mecânica permitidas. Alternativamente, poderia obter uma licenciatura em Engenharia Mecânica ou Engenharia Biomédica com ênfase nas áreas acima referidas.

O programa de mestrado deveria consistir em: três a cinco unidades curriculares em Engenharia Electrotécnica/Mecânica nos domínios do projecto de electrónica, projecto de mecânica, informática e sistemas de controlo; duas ou três unidades curriculares na área médica e da biologia cobrindo fisiologia, neurofisiologia, anatomia, neuroanatomia e análise do movimento; quatro ou cinco unidades curriculares em Engenharia Biomédica incluindo biomecânica do movimento, biomateriais e bio-instrumentação e duas ou três unidades curriculares combinando projectos, estágio e aulas destinadas a fornecer competências específicas para a Engenharia de Reabilitação.

Este estudo coincide com o período de lançamento dos primeiros mestrados de Engenharia Biomédica com especialização ou concentração em Engenharia de Reabilitação: em 1978 na Universidade de Dundee – Escócia e em 1979 na Universidade de Virgínia – EUA. Curiosamente é também nesta altura que surge a RESNA (1979), apesar de existência da Sociedade de Engenharia Biomédica dos EUA.

No final dos anos 80 e início dos anos 90 surgem vários programas de formação em Engenharia de Reabilitação com iniciativas ao nível do ensino pré-graduado e graduado. Contudo, enquanto que nos EUA a necessidade de formação de engenheiros de reabilitação se fez sentir ao nível dos serviços de engenharia/tecnologias de reabilitação para a integração de pessoas com deficiência, nomeadamente no trabalho, na Europa, e em particular no Reino Unido, essa necessidade teve origem na qualificação do sistema nacional de saúde.

Em 1993 era reconhecido pelos investigadores europeus que a formação em Engenharia de Reabilitação estava mais desenvolvida na América da Norte do que na Europa [Azevedo 1993].